quarta-feira, 9 de abril de 2014

Semana dos Museus de 12 a 18 de maio de 2014

A Semana dos Museus é um evento que ocorre no país inteiro, e terá sua segunda edição realizada no período de 12 à 18 de maio de 2014 no Museu Capitão Henrique José Barbosa, Canguçu-RS. O evento é o responsável por 130% do aumento do público visitante dos museus brasileiros, e é organizado pelos museus através do IBRAM, Instituto Brasileiro de Museus.

Em 2014 o evento terá um caráter mais educacional, buscando uma proximidade maior com o público através de programações culturais interativas adequadas a cada faixa etária. Se adequando a temática “Museus: as coleções criam conexões”, o Museu Municipal procurará não só mostrar as conexões das suas próprias coleções mas buscar entender coleções de outras instituições através de comunicações abertas em edital.

Manter viva a cultura patrimonial no município será um dos propósitos, buscando movimentar a Casa da Cultura Marlene Barbosa Coelho no decorrer das atividades. A coleção em destaque será a coleção de materiais fotográficos de Egídio Camargo, que será exposta no salão central da Casa da Cultura, e no decorrer da programação mostrará as diversas conexões da mesma coleção em diversas diretrizes culturais do município.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Sugestão de Leitura (disponível na Biblioteca)

A Festa no Castelo - Moacyr Scliar

O mundo mágico e requintado da aristocracia italiana, um jovem idealista, um velho sapateiro que quer mudar o mundo, o golpe de 1964, medos, festas, falências, conflitos de família, sonhos de um mundo sem exploradores nem explorados. Enfim, todo o talento e a magia da ficção de Moacyr Scliar estão neste A festa no castelo.

Catálogo: Coleção L&PM Pocket

Gênero: Literatura moderna brasileira Romance

ISBN: 85.254.1040-3

Páginas: 138

Moacyr Scliar: Nasceu em Porto Alegre em 1937 e faleceu em 27 de fevereiro de 2011. É autor de mais de 80 livros, uma obra que abrange vários gêneros: ficção, ensaio, crônica e literatura juvenil. Muitos destes foram publicados nos Estados Unidos, França, Alemanha, Espanha, Portugal, Suécia, Argentina, Colômbia, Israel e outros países, com grande repercussão crítica. Entre outros, recebeu os prêmios: Prêmio Joaquim Manoel de Mace­do (1974), Prêmio Erico Verissimo (1976), Prêmio Ci­da­de de Porto Alegre (1976), Prêmio Guimarães Rosa (1977), Prêmio Brasília (1977), Prêmio Jabuti (1988, 1993 e 2000), Prêmio Associa­ção Paulista de Críticos de Arte (1989), Prêmio Casa de las Americas (1989), Prêmio Pen Clube do Brasil (1990), Prêmio José Lins do Rego (Academia Brasileira de Letras, 1998). Formou-se em medicina em 1962, especializando-se em saúde pública. Em 1993 e 1997 foi professor visitante na Brown University (Departament for Portuguese and Brazilian Studies), nos Estados Unidos.
Moacyr Scliar foi colunista dos jornais Zero Hora e Folha de S.Paulo e colaborou em vários órgãos da imprensa no país e no exterior. Tem textos adaptados para cinema, teatro, tevê e rádio, inclusive no ex­te­rior. Em 2003, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras. 

Obras do Autor
Contos:
-O carnaval dos animais. Porto Alegre: Movimento, 1968. (Disponível na Biblioteca)
-A balada do falso Messias. São Paulo: Ática, 1976.
-Histórias da terra trêmula. São Paulo: Escrita, 1976.
-O anão no televisor. Porto Alegre: Globo, 1979.
-Os melhores contos de Moacyr Scliar. São Paulo: Global, 1984.
-Dez contos escolhidos. Brasília: Horizonte, 1984. (Disponível na Biblioteca)
-O olho enigmático. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
-A orelha de Van Gogh. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
-Contos reunidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
-O amante da Madonna. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1997.
-Os contistas. Rio de Janeiro: Ediouro, 1997.
Romances:
-A guerra no Bom Fim. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1972; Porto Alegre: L&PM, 1981.(Disponível na Biblioteca)
-O exército de um homem só. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1973; Porto Alegre: L&PM, 1980. (Disponível na Biblioteca)
-Os deuses de Raquel. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1975; Porto Alegre: L&PM, 1983. (Disponível na Biblioteca)
-O ciclo das águas. Porto Alegre: Globo, 1975; Porto Alegre: L&PM, 1997. (Disponível na Biblioteca)
-Mês de cães danados. Porto Alegre: L&PM, 1977. (Disponível na Biblioteca)
-Doutor Miragem. Porto Alegre: L&PM, 1979. (Disponível na Biblioteca)
-Os voluntários. Porto Alegre: L&PM, 1979. (Disponível na Biblioteca)
-O centauro no jardim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980; Porto Alegre: L&PM, 1983. (Disponível na Biblioteca)
-Max e os felinos. Porto Alegre: L&PM, 1981.
-A festa no castelo. Porto Alegre: L&PM, 1982. (Disponível na Biblioteca)
-A estranha nação de Rafael Mendes. Porto Alegre: L&PM, 1983.
-Cenas da vida minúscula. Porto Alegre: L&PM, 1991.
-Sonhos tropicais. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
-A majestade do Xingu. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
-A mulher que escreveu a Bíblia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Ficção Juvenil:
-Cavalos e obeliscos. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1981. (Disponível na Biblioteca)
-Memórias de um aprendiz de escritor. São Paulo: Com­pa­nhia das Letras, 1984.
-No caminho dos sonhos. São Paulo: FTD, 1988.
-O tio que flutuava. São Paulo: Ática, 1988.
-Os cavalos da República. São Paulo: FTD, 1989.
-Pra você eu conto. São Paulo: Atual, 1994.
-Uma história só pra mim. São Paulo: Atual, 1994.
-Um sonho no caroço do abacate. São Paulo: Global, 1995.
-O Rio Grande Farroupilha. São Paulo: Ática, 1995.
Crônicas:
-A massagista japonesa. Porto Alegre: L&PM, 1984. (Disponível na Biblioteca)
-Um país chamado infância. Porto Alegre: Sulina, 1989.
-Dicionário do viajante insólito. Porto Alegre: L&PM, 1995.
-Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Porto Alegre: L&PM, 1995.
Ensaio:
-A condição judaica. Porto Alegre: L&PM, 1987. (Disponível na Biblioteca)
-Do mágico ao social: a trajetória da saúde pública. Porto Alegre: L&PM, 1987.
-Cenas médicas. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1988.
-Se eu fosse Rothschild. Porto Alegre: L&PM, 1993.
-Judaísmo: dispersão e unidade. São Paulo: Ática, 1994.
-Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1996.  
-A paixão transformada: história da medicina na lite­ratura. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Conto: A Cartomante - Machado de Assis (disponível na Biblioteca)

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

*Este conto foi publicado originalmente na
Gazeta de Notícias - Rio de Janeiro, em 1884. Posteriormente foi incluído no livro "Várias Histórias", "Contos Escolhidos" e em "Contos: Uma Antologia", Companhia das Letras - São Paulo, 1998, de onde foi extraído. Com esta publicação homenageamos Machado de Assis.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Artigo de Alan Otto Redü

Carlos Reverbel
Um Marco Nas Letras do Sul

Há alguns dias atrás terminei de ler o Livro “Carlos Reverbel Textos Escolhidos” que se configura basicamente em alguns dos melhores textos reunidos, sob criteriosa apreciação da critica do Jornalista e escritor Carlos Reverbel. Organizado brilhantemente pelos Jornalistas Claudia Laitano e Elmar Bones, livro este lançado no ano de 2006. “Reverbel revela-se um incansável “garimpador” de histórias e personagens da cultura gaúcha além de um narrador elegante e preocupado com o prazer dos leitores” Nos aponta Claudia Laitano. Carlos Reverbel nasceu no município de Quarai/RS a 21 de Julho de 1912, foi conterrâneo e amigo de outro grande escritor e psicanalista Gaúcho, Cyro Martins. Depois de passar a infância em São Gabriel/RS terra dos marechais, foi para capital Porto Alegre, para mais tarde ir para Florianópolis/ SC, onde iniciou no ano de 1934 a sua carreira de Jornalista, morou também no Rio de Janeiro/RJ, Além de ser colaborador dos jornais Gaúchos Zero Hora e Correio do Povo, hoje Grandes veículos de circulação no sul do País. Carlos Reverbel escreveu vários livros, entre eles quiçá o mais importante de sua lavra literária, pela importância que o mesmo traria a todos os admiradores da obra de João Simões Lopes Neto, o imortal escritor Pelotense. Reverbel é considerado seu principal biógrafo, pois em “Um Capitão da Guarda Nacional” ele além de apresentar fatos relevantes da vida e da obra de Simões Lopes Neto, ele nos faz compreender alguns pontos específicos que nos facilitam o entendimento dos raciocínios “Simonianos”, quando este se aproxima da visão de mundo, anseios e sonhos do autor de “Lendas Do Sul” e “Contos Gauchescos”. Não se pode explanar sobre a Simões Lopes Neto, sem mencionar a fundamental contribuição de Carlos Reverbel para a obra deste... Reverbel, Tinha uma sensibilidade aguda e um talento genial, para escrever suas matérias. Nunca deixou que alguma vaidade ou benefício Próprio corrompesse seus valores morais, foi ético em toda a sua vida no desempenho de suas tarefas jornalísticas. Passou por inúmeras dificuldades, até porque ser jornalista no século passado não era uma atividade que tornasse algum homem em rico ou famoso, bem pelo contrário. Carlos Reverbel era Intenso... Ele mesmo nos diz:
“Talvez Já suspeitando da atmosfera Romântica nosso amigo comum, pediu licença e saiu, deixando a sós os dois quase desconhecidos, Eu (Reverbel) tomava Cerveja, Ela ( Olga) Tomava Licor, ela adorava teatro, eu preferia literatura. Eu era muito Tímido. Ela Falava o tempo Todo. No Final da Manhã já estávamos apaixonados...” Este era Carlos Reverbel sem se poupar, vivia intensamente cada segundo de seus dias. Sendo o mesmo com todas as pessoas que o procuravam. Nas últimas linhas do já mencionado livro “Textos Escolhidos” ele nos Diz: “Da Minha Parte se pudesse pleitear algum tipo de premiação por tempo de serviço, não teria duvida em pedir muitos anos de vida lúcida e útil, ativa nesse mundo imperfeito em que vivemos” O Rio Grande do Sul como o Brasil, deve muito ainda a Memória de Carlos Reverbel, não por ele ter tido contato com grandes intelectuais de seu tempo, mas pela própria luz que ele acendeu ao escrever cada linha relatando olhares diferentes em cada matéria que escrevia. Pela vida devotada ao Jornalismo e a história do Rio Grande do Sul. Conheçamos mais este importante Intelectual das letras do Sul.

Alan Otto Redü é estudante de Economia da Universidade Federal de Pelotas.
E-mail Profissional: alan.redu@cangucu.gov.rs.br

 Obra disponível na Biblioteca

quinta-feira, 3 de abril de 2014

"À Bandeira da República" a poesia premiada de Vanderlei Pinto de Oliveira

À Bandeira da República

No galope do minuano
Tremula a velha bandeira
Testemunha e companheira
Da epopéia farroupilha
Quando andou nestas coxilhas
Nas mãos do negro farrapo
E mesmo virada em trapo
Não deixou de ser caudilha;

Quantas lutas presenciastes
Por estes rincões do pampa
Mantendo firme a estampa
Do gaúcho em sua essência
E o sonho de independência
Que, plantado sobre este chão
Criou forma de coração
E transformou-se em Querência;

Apesar de tantos invernos
Mantivestes viva a cor
Do sagrado pendão tricolor
Que em muitos pagos andou
E tantas glórias guardou
Pois ainda carrega a marca
Do sangue de algum monarca
Que por cima de ti tombou;

Imagino, velha bandeira
Que se pudesses falar
Haverias de contar
Das noites de invernias
Ou dos atos de valentia
Que ainda guardas na memória
Pois fizeste parte da história
Que o gaúcho escreveu um dia;

E hoje, quando te vejo
Sempre me vem na lembrança
A silhueta de uma lança
Que um farrapo traz na mão
Pra cumprir a nobre missão
De defender esta terra
Nos tempos da Grande Guerra
Que demarcou este chão;

Mas estes tempos passaram
E pelos rincões do pampa
Não se vê mais a estampa
Do gaúcho peleador
Que sem receio ou temor
Lutou por mais igualdade
E mostrou que a liberdade
Se conquista com amor;

Onde andará o nosso orgulho ?
Me responda, velha bandeira !
Será que se perdeu na poeira
Nos corredores do pago?
Como a água do mate-amargo
Que aos poucos se vai embora
Levando um pouco da história
Que bebemos trago a trago;

Bandeira velha, farrapa
No passado foi legendária
Hoje triste e solitária
À espera de um companheiro
Que no calor do entrevero
Pudesse tentear a sorte
Ou mesmo depois da morte
Lhe servisse de baixeiro;

Trago sempre de à cabresto
O desejo ainda puro
Que nossos filhos, no futuro
Preservem o teu passado
E que sempre bem pilchado
Sem ostentar muito luxo
Ainda reste um gaúcho
Em guarda no teu costado;

Bandeira; sei que no mundo
Ninguém fica pra semente
E um dia certamente
No pago eu nunca mais ande
Mas eu quero que alguém mande
Me colocar no puro chão
E em cima do meu caixão
Uma bandeira do Rio Grande.

Sobre Vanderlei Pinto Oliveira
Nascido em Canguçu, no Sul do Estado do Rio Grande do Sul, neto de uruguaios de origem ibérica pelo lado paterno e descendente de indígenas pelo lado materno, sou Vanderlei Pinto de Oliveira, segundo filho de Valnei Almeida de Oliveira e Zaira Pinto de Oliveira, campesinos por origem e gaúchos de alma e coração.Irmão do matemático e tradicionalista, professor Claudiomar Pinto de Oliveira.
Cresci no campo ouvindo o berro do gado,o relinchar dos potros e o cantar do quero-queros.Gaúcho de nascimento e coração, desde cedo interessei-me pelos costumes e tradições da minha terra.Formei-me o Primário, Secundário e hoje estou cursando Licenciatura em Geografia pela Universidade Federal de Pelotas-UFPEL.
Fonte: http://www.poetasdelmundo.com/detalle-poetas.php?id=7530

terça-feira, 1 de abril de 2014

DICA DE FILME BASEADO EM LIVRO

OS CANHÕES DE NAVARONE ___LIVRO___ (Disponível na Biblioteca)


Editora: Nova Fronteira
ISBN: 0
Ano de Edição: 1967
Paginas: 338

“Os Canhões de Navarone” é um livro de aventuras sobre a segunda Guerra Mundial. A história se passa na ilha de Kheros, onde mil e duzentos soldados Britânicos estão isolados à espera da morte, eles lutam no Mar Egeu contra as tropas do 3º Reich. Numa tentativa de fazer com que a Turquia se alie ao Alto Comando do Eixo, em Berlim, o Comando prepara uma demonstração de força, próxima à costa do país. Para isso, o melhor armamento deve ser utilizado, assim, os britânicos poderiam ser facilmente dominados. A única maneira de fugir é por uma rota de fuga que se encontra bloqueada por dois canhões controlados por radar e instalados em Navarone, uma pequena e estratégica ilha na divisa de Kheros.
Aparentemente, o lugar é uma fortaleza de ferro e impenetrável. Keith Mallory, capitão experiente, treinado em montanhismo, é incumbido de liderar um pequeno grupo para escalar o precipício de Navarone e fazer explodir os canhões. O capitão terá que colocar seu grupo em risco e calcular meticulosamente suas ações na guerra. Eles têm apenas seis dias para enfrentar o fogo inimigo, patrulhas alemãs, além de lidar com questões de liderança e a suspeita de ter um traidor no grupo.



OS CANHÕES DE NAVARONE ___FILME___


Título original: The Guns of Navarone 
Duração: 156 minutos (2 horas e 36 minutos)
Gênero: Guerra / Drama
Direção: J. Lee Thompson
Ano: 1961 
País de origem: EUA

Sinopse: Gregory Peck, Anthony Quinn e David Niven são sabotadores aliados designados para uma missão impossível: infiltrar-se numa impenetrável ilha dominada pelos nazistas e destruir os dois imensos canhões que impedem o resgate de 2 mil soldados britânicos aprisionados. O roteirista proscrito pelo Macarthismo, Carl Foreman (Matar ou Morrer, A Ponte do Rio Kwai) estava determinado a restabelecer seu nome e credibilidade após passar a maior parte dos anos 50 trabalhando no anonimato. Para tanto decidiu levar às telas o romance de Alistair MacLean, Os Canhões de Navarone. Apoiado num elenco de astros e produção grandiosa, o filme fez enorme sucesso, recebendo sete indicações para o Oscar de 1961 (inclusive Melhor Filme) e evencendo a de Melhores Efeitos Especiais. Apesar de Foreman ter marcado seu gol, foi MacLean o verdadeiro beneficiado; seu romance tornou-se fonte para muitas aventuras épicas no cinema, incluindo Estação Polar e Desafio das Águias. Contudo, é Canhões de Navarone que permanece não apenas como uma das melhores adaptações de MacLean, mas um dos maiores espetáculos de ação e aventura já produzidos.



Felicidade clandestina - Clarice Lispector (disponível na Biblioteca)

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.